Um ditado diz que na família começamos e nela terminamos. A família é a célula básica de organização da sociedade, e a principal responsável pelo cuidado dos que chegam para a jornada da vida. É verdadeiro que, no percurso da existência, cada um de nós passe a integrar e a construir sua identidade através de grupos, comunidades e organismos coletivos: seu país; a cidade no qual nasceu; a classe social a que pertence de início. Posteriormente, temos relativa liberdade para escolher os grupos com que nos identificamos: os amigos na escola ou na faculdade; um partido político; as comunidades de cultura (cinema, literatura, música); as comunidades ligadas às práticas de esportes ou de entretenimento (futebol, artes marciais, atletismo, musculação, jogos digitais, torcida organizada); as comunidades religiosas, em torno de uma igreja local; os colegas próximos em determinado ramo ou cotidiano de trabalho. Os grupos a que nos filiamos passam a integrar nossa identidade, a participar do significado de nossa existência, e são uma fonte constante de vitalidade, descoberta, contato humano e aprendizagem. Entretanto, para a maior parte de nós, a família continua sendo o "nosso lar", o teatro do mundo onde acontece o cerne de nossas vidas: o amor, a casa, o sono, o lazer, a partilha, os boletos, a convivência diária, as férias, o acompanhamento no hospital, o cuidado na doença, o apoio, os conflitos.
Não há mais lugar para entendermos a família a partir da tradicional ideia de "pai, mãe e um casal de filhos". Para compor uma família, bastam duas pessoas: por exemplo, uma mãe e sua filha; um avô e um neto; um casal cis ou trans. Para sentir-se parte de uma família, não é necessário residir no mesmo local: a mãe, o pai, o avô, ou qualquer pessoa que nos "criou", que não abandonou e efetivamente esteve conosco quando éramos crianças e dependentes, serão para sempre nossa família. Para o bem e para o mal. Aqui, o sambista errou: a família é tudo, menos uma lata de conserva.
Me recordo a história de um paciente. Tinha cerca de 40 anos de idade e havia sido criado apenas pelo pai, pois a mãe falecera pouco tempo após o nascimento. Grande era o amor, mas, também, grande o sofrimento nessa família. O homem se lembrava de maneira vívida das cenas causadas pelo alcoolismo do pai, e de seus surtos de agressividade, embora nunca tivesse sofrido uma agressão física. Se recordava, também, de seus momentos de "desligamento", quando o pai ficava emocionalmente ausente e inalcançável diante de uma criança que necessitava de atenção, amor e suporte para enfrentar as dificuldades do crescimento. Aos 18 anos, o jovem saiu de casa; meses depois, se casou. Porém, não foi um casamento feliz; e a separação se prolongou por quase dez anos. Apesar de nunca mais tê-lo visto após o casamento, apesar de entender o assunto como encerrado e resolvido, o pai continuava a habitar o coração desse homem, e tanto amor misturado com um sofrimento difícil de ser expresso em palavras. Levamos sempre conosco nossa infância, e as pessoas que foram centrais durante esse período da vida.
Não escolhemos onde ou quando nascer. Mas, posteriormente, quando chegamos na etapa da emancipação, a sociedade nos permite construir uma segunda família (ou primeira, para aqueles que cresceram em uma instituição). Escolhemos ou somos escolhidos? Decidimos, ou o arrebatamento do amor e da paixão nos fazem colar em alguém? Planejamos casar ou uma emoção que nos ultrapassa e nos empurra para permanecermos sempre com a mesma pessoa, mesmo em situação de dor e sofrimento? Planejamos, ao contrário, viver de paquera em paquera, de namoro em namoro, ou um sentimento mais profundo nos obriga sempre a escapar, sempre a usar uma lupa para descobrir um problema insuperável e sentir um desgosto, e então mais uma vez buscar o término, a solidão, a solteirice?
O chamado "conflito familiar" se manifesta e pode ser abordado através de duas estratégias. A primeira é passível de ser nomeada como "conflito interno", e diz respeito à família que carregamos conosco e que nos habita. Quando as coisas vão bem, a "família internalizada" é um fonte de sentimentos, referências e ideias que nos inspiram e nos dão forças para enfrentar a vida. Afinal, muitas vezes seguimos adiante a partir do amor que sentimos por aqueles que nos são caros.
Porém, às vezes, temos hóspedes ruidosos no coração. Ao invés de nos propiciar energia e vitalidade, nos sufocam, nos amedrontam, nos desvalorizam, nos enchem de desesperança ou desespero. Não é difícil pensar as situações em que o amor se transforma em ódio: somos levados a nos afastar. Porém, é causa de grande confusão e desorientação quando uma situação mais delicada emerge: quando a dor e o desamor passam a coexistir no centro do amor. O amor permanece, mas com qualquer coisa adoecida e deteriorada por dentro. Já não conseguimos dizer que seja "amor", mas o pior é que é.
Outra estratégia ocorre quando pensamos em termos de "conflitos externos". É quando aqueles que compartilham a jornada da vida, conosco, que moram onde moramos, que comem na mesa em que comemos, passam a compor uma intensa sinfonia da discórdia. Tal gênero de conflito é tão antigo quanto a humanidade, e a tradição judaico-cristã inseriu o desentendimento fratricida na primeira família que viveu fora do Éden, na primeira geração de seres humanos: quem alguma vez não se sentiu tocado pela história de Caim e Abel?
Como conviver quando a própria convivência se torna impraticável? Sabemos que o Brsil é um país dilacerado pela brutalidade e pela violência: os índices de latrocínios, furtos e homicídios são devastadores. Porém, as mesmas estatísticas mostram todos os dias que a violência não está somente lá fora, nas ruas; quantas residências, em nosso país, não são barris de pólvora, prestes a explodir sobre a cama dos mais vulneráveis? A quantidade de feminicídios revela com insistência que, no Brasil, nem sempre é fácil sobreviver à própria família.
Para alguns a solução é simples: ir embora. Mas não me parece que seja assim para a maior parte de nós. Para a maior parte, só é possível uma esperança: que a discórdia se transforme em uma chance de mudança, de aceitação, de crescimento e compreensão mútua. Não em termos ideais, mas na medida de nossas limitações.
Já vi muitos tripulantes de uma embarcação, após uma tempestade, alcançarem os botes salva-vidas e fugirem, cada um para seu lado. Mais raramente, vi os tripulantes sofrerem a tempestade e, em meio à crise, se voltarem uns contra os outros, recriminando os erros e equívocos e decisões ruins; porém, após seguidas tentativas de uma união difícil, repleta de conflito, conseguirem atravessar a borrasca e alcançar a complicada aprendizagem da convivência e do companheirismo. Que são, também, as mais recompensadoras das artes.