Nossa vida é mercada por dois ciclos sobrepostos: o ritmo das novidades e o ritmo das repetições.
Entre as novidades, estão aqueles eventos que só acontecem uma vez na nossa existência, ou então as fases da vida. Por mais que algumas pessoas de idade avançada se comportem como adolescentes, a natureza só nos permitiu atravessar a juventude uma única vez. O primeiro amor, o nascimento de um filho, a formatura no Ensino Médio, a primeira entrevista de emprego, a perda de um familiar importante: são eventos que nos atingem e nos transformam.
Mas nossa vida também é marcada pelo ritmo das repetições. O sono, a fome, as necessidades do corpo. O cotidiano, marcado pelo ciclo dos dias da semana e pelos horários fixos com que a sociedade se organiza, na escola ou na trabalho. Às vezes a repetição do cotidiano é tão severa que nos sentimos presos no chamado "dia da marmota", quando o novo dias é sempre o mesmo velho dia.
Às vezes, adoecemos no ritmo das novidades: não conseguimos nos adaptar a uma nova fase na vida (a passagem da adolescência ou a descoberta da velhice); adoecemos com a irrupção do primeiro amor e nossa inexperiência em lidar com ele; adoecemos com a mudança de uma cidade ou de um emprego.
Mas também há momentos em que adoecemos no ritmo das repetições. É quando as coisas que se repetem, e que deveriam organizar nossa existência, nos ultrapassam e começam a apagar nossa identidade, nossa vontade, nosso contato humano.
O adoecimento pelas repetições não é novo. No século IV, Agostinho, bispo de Hipona, em sua autobiografia, nos conta a história de um jovem que manifestava forte avulsão e desprezo pelo que acontecia nas arenas de gladiadores. Dizia para todos que jamais iria pôr os pés em um estádio. Os amigos insistiam para que o jovem fosse ver uma única vez os espetáculos, para tirar suas conclusões após conhecer, com os próprios olhos, o que acontecia. Após muita insistência, o jovem concordou. Então, quando as lutas começaram, o rapaz ficou impressionado; acompanhava com a atenção fixa cada movimento dos gladiadores, sentindo enorme fascínio. Naquele momento, uma transformação silenciosa ocorreu no interior do jovem. A partir daquele dia, ele passou a frequentar os estádios de maneira febril, nunca perdendo uma única apresentação, e fazendo do fúnebre espetáculo o centro e o cerne de sua vida. Pouco a pouco, abandonou mesmo o convívio dos amigos.
A narrativa de Agostinha revela que, às vezes, a repetição nos ultrapassa. Há um curto-circuito entre o ritmo das novidades e o ritmo das repetições, e o que poderia ser casual se torna um ímã que nos arrasta. Mesmo com aversão, mesmo com nosso sentimento de responsabilidade, mesmo com promessas às pessoas que nos amam e nos apoiam, retornamos a uma repetição que consome a existência e apaga nossa luz.