A interdisciplinariedade nunca foi incomum no campo da psicoterapia (psicólogia e psicanálise). Freud começou seu percurso como médico especializado em neurofisiologia experimental, e seu doutorado teve como tema as enguias. O fundador das terapias ligadas ao behaviorismo e à análise do comportamento, B. F. Skinner, jamais atuou como psicólogo clínico, e seu laboratório de pesquisa integrava o que, atualmente, são dois campos distintos de investigação: a psicologia experimental e a etologia. Na verdade, parte importante da tradição de pesquisa fundada por Skinner não diferencia essas áreas que, particularmente, me parecem campos distintos do saber.
Os exemplos se acumulam: Erik Erikson, que produziu uma obra de grande influência, era artista antes de se tornar psicanalista; Albert Ellis, fundador da TREC (Terapia Racional-Emotiva Comportamental) era um homem de negócios antes de se dedicar integralmente à psicologia.
Sem ter nenhuma ambição de me comparar aos exemplos acima, a interdisciplinariedade também foi parte integrante de minha trajetória pessoal. Durante a infância, convivi com familiares apaixonados por automóveis, mecânica e carros de corrida; porém, desde cedo, entendi que meu interesse estava conectado indissiociavelmente para outro gênero de engenharia: a vida das pessoas. Não do ponto de vista "biológico", dos órgãos e sistemas orgânicos, o que me afastou das áreas médicas; mas sobretudo na interação entre subjetividade e sociedade. Apesar dos livros de psicologia me acompanharem desde a adolescência, dediquei minha juventude para o campo das ciências humanas.
Assim, após uma curta experiência na área de letras e de imersão no estudo da literatura, encontrei no área da História uma forma apaixonante de olhar a vida dos homens nas suas mais diferentes formas. Realizando uma formação concomitante em Psicologia e História, a segunda área acabou me levado para o campo da pesquisa que, por sua vez, abriu-me as portas do tempo e do espaço. Viajei e morei nos séculos anteriores à luz elétrica, e ali observei como as pessoas viviam e enfrentavam as dificuldades do tempo, e como amavam e sofriam e eram criativas diante das adversidades, ou cruéis diantes dos semelhantes. Viajei também no espaço e residi em outros países, junto à comunidade científica.
Esse percurso me levaria à carreira docente, não fosse por um detalhe: sou melhor psicólogo clínico do que professor. A História foi o mar por onde naveguei; a psicologia é minha terra firme. E o consultório de atendimento é meu habitat natural. É no consultório que ocorre minha melhor contribuição para minha sociedade, e onde melhor reverto o conhecimento adquirido em prática e profissionalismo.