No ano de 1967, Aaron Beck publicou "Depression: causes and treatment" (Depressão: causas e tratamento), dando início a um novo modelo de tratamento psicoterapêutico que, posteriormente, passou a ser conhecido como Terapia Cognitivo-Comportamental. Em 1995, sua filha, Judith Beck, também psicóloga, publicou o livro "Cognitive Behavior Therapy: Basics and Beyond", obra que passou a ser utilizada como o manual básico fundamental da TCC. A nova abordagem trazia diversos procedimentos específicos na forma de atendimento; entre eles, a estipulação de um período preciso para a psicoterapia: seis meses de duração, com possibilidade de renovação. A TCC, portanto, trazia uma ruptura com a ideia de uma psicoterapia estendida no tempo, com inexistência de um prazo para o encerramento.
A questão sobre o encerramento da psicoterapia não é nova. Em 1937, Freud publicou um artigo denominado "Análise terminável e interminável". Aqui, Freud colocava de maneira direta a questão sobre como determinar o final de uma análise. O fundador da psicanálise ofereceu uma perspectiva clara e radical: a ideia de uma "cura completa" não passaria de uma ilusão, uma vez que os conflitos psíquicos são inerentes à nossa condição. O máximo que podemos contar é com a melhora na qualidade de vida trazida pela redução ou remissão dos sintomas.
Atualmente, os profissionais da psicologia trabalham com diferentes métodos de abordar o início, o desenvolvimento e o encerramento da psicoterapia. Eu, pessoalmente, me alinho com o conceito de um processo psicoterapêutico formado por ciclos. Cada ciclo tem um início, meio e fim; e o período de cada ciclo costuma durar, em médio, entre seis meses e dois anos. Após o término de um ciclo, a psicoterapia é formalmente encerrada. É importante lembrar que nada impede a pessoa a procurar outro psicólogo, e a estabelecer um novo e diferente processo. O período de um ciclo terapêutico é estabelecido de maneira formal e clara, após as primeiras sessões, e o paciente tem conhecimento do tempo de duração da terapia. É possível, naturalmente, fazer ajustes durante o processo; porém, o tempo de duração da psicoterapia não é modificado de maneira radical. Considero que o paciente tem direito de ter uma perspectiva de quanto tempo irá frequentar um consultório clínico, em qualquer área da saúde.
Tem se tornado comum escutar pessoas dizerem: "eu vou fazer psicoterapia, mas quero um profissional da abordagem X". É importante que as pessoas tenham informações e façam escolhas de maneira consciente, conduzindo a própria vida de acordo com suas crenças e seus valores pessoais. Entretanto, eu frequentemente tenho impressão de que algumas decisões são tomadas a partir de crenças infudadas, geradas por má-informação. A informação superficial, passível de ser distribuída de maneira rápida e fabril, tem se tornado uma praga na sociedade das redes sociais.
Recentemente, inclusive, um debate entre uma infectologista de prestígio e um importante professor de psicologia da Universidade de São Paulo tomou os noticiários: segundo a infectologista, a psicanálise ocuparia um papel menor em relação às "psicologias baseadas em evidências", em geral ligadas à psicologia de Análise do Comportamento. O professor da Universidade de São Paulo manifestou com sólidos argumentos uma posição oposta.
Como profissional da psicologia, minha concepção se aproxima daquela defendida pelo professor universitário. Creio que, aqui, é necessário evitar tendências de "fetichizar a tecnologia", ou seja, apostar muitas fichas em sistemas teóricos e abordagens psicoterapêuticas e esquecer o mais importante: a pessoa que está conduzindo. Na minha prática, atuando junto a amigas e amigos da profissão, tenho testemunhado psicólogas e psicólogos excelentes em qualquer abordagem: psicologia de orientação psicanalítica, psicologia humanista, TCC, gestalt-terapia, etc. E, infelizmente, algumas vezes me deparei com profissionais de má-qualificação em todas as abordagens. Por isso, sempre repito às pessoas que pedem minha opinião: não há uma abordagem que seja melhor do que a outra. Há, sim, psicólogas e psicólogas, e o mais importante é encontrar um profissisonal em quem você se sinta à vontade e sinta, também, que a psicoterapia está funcionando.
Em geral, nos serviços de saúde, não demoramos a perceber quando somos mal atendidos. Eu mesmo já tive péssimas experiências com alguns profissionais da medicina. E o psicoterapeuta? Quando saber se é bom ou ruim?
A resposta não é simples ou direta. Temos alguns sinais e alguns princípios importantes.
Teu psicólogo te recomenda ir à Igreja? Fuja! Tua psicóloga repreende tua orientação sexual? Corra! Você não se sente escutado? Pense em procurar algo diferente. Você escuta diversos conselhos do que fazer e do que não fazer? Desconfie. A prática profissional não comporta esses tipos de intervenção.
Aqui, uma informação importante: é preciso sempre salientar o que é considerado como prática da psicologia e o que não é. Assim, o CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA NÃO reconhece como práticas da psicologia:
A Constelação Familiar
A terapia holística
Terapia "energéticas-espirituais" (Reiki, alinhamento energético).
Técnicas esotéricas (tarot, numerologia, radiestesia).
Você tem toda liberdade de procurar qualquer uma das terapias mencionadas acima, e compartilhar experiências boas ou ruins em cada uma delas. Não se trata, aqui, de afirmar que se essas práticas são boas ou ruins, funcionam ou não funcionam. Trata-se apenas de deixar claro que todas essas não fazem parte do campo da psicologia clínica, e não requerem um profissional de saúde treinado e formado em uma instituição certificada pelo MEC, incluindo participação em ensino com corpo docente com qualificação necessária e realização de estágios de aprendizagem.
O psicoterapeuta não é um amigo. A psicoterapia é um trabalho certificado na área da saúde, e tem como finalidade promover diversas formas de bem-estar pessoal e/ou familiar, sendo praticada por profissionais com a qualificação necessária.
E aqui se destaca o ponto mais delicado do que ocorre dentro do consultório: a psicoterapia toca na ferida. E o corpo naturalmente resiste, e às vezes dói menos deixar a ferida do que tratar da ferida. Às vezes chegamos na psicoterapia cheio de boas intenções e descobrimos que ali, no consultório, começam a emergir as nossas más intenções, e é difícil ter de olhar para certos aspectos menos solares da nossa personalidade.
Podemos ter raiva do nosso terapeuta? Por suposto. Mesmo porque tantas vezes ele não nos dá o que queremos ouvir, o que queremos receber, o que queremos vivenciar. Hoje em dia, me parece que o abandono da psicoterapia é a forma mais comum de "término". Afinal, há sempre um álibi disponível: basta inferir que o psicoterapeuta é ruim, e, assim, ter uma justificativa para se retirar. Se retirar do quê? Do processo de mudança que a psicoterapia pode trabalhar, e que, tantas vezes, é penoso e insuficiente.
Gostaria de dizer apenas uma coisa: sinta-se à vontade. À vontade para seguir sua vontade de começar, e seguir sua vontade de parar, e seguir sua vontade de retornar. Porém, se puder e quiser, compartilhe. Compartilhe com seu psicoterapeuta a sua raiva, a sua sensação de que nada está mudando, e nada está funcionando, e que pretende parar.
Não é possível dizer qual abordagem é a mais indicada. Nem sempre é fácil perceber se a psicoterapia está no caminho certo. Então, o que resta?
Uma última palavra, sobre o que talvez seja uma tendência lenta e inexorável: o fim do "terapeuta geral". Do psicólogo para todos os casos.
Nos principais centros de prática psicoterapêutica do Ocidente, tenho impressão de estar em andamento uma tendência à formação mais especializada, análoga à área da medicina. Ou seja, da consolidação de profissinais especializados em atender e tratar tipois específicos de questões: a pessoa que sofre agudo estresse pós-traumático, a pessoa diagnosticada com bipolaridade, ou com estrutura de personalidade borderline.
No Brasil, de fato algumas áreas de maior especialização estão se consolidando. A área de atuação com pessoas em situação de dependência química. Profissionais especializados em lidar com o público infantil. Ou psicólogas especializadas em lidar com os diferentes públicos da população portadora de deficiências: pessoas com TEA ou DI, por exemplo.
Então voltamos à pergunta inicial: há uma melhor abordagem para quem procura a psicoterapia? Me parece que uma pergunta mais precisa é: o que, exatamente, a pessoa está procurando na psicoterapia? Com a resposta em mãos, talvez seja mais pertinente procurar um profissional mais familiarizado com o tema, independentemente da abordagem.