Há pouco mais de dois milênios, o genial Aristóteles definiu a condição humana com uma expressão lapidada: o ser humano é um animal racional. A definição, apenas aparentemente simples, é carregada de consequências fundamentais. Entre elas, a ideia de que o homem é naturalmente um ser social e, portanto, político; sua existência se dá no encontro com outros seres humanos, e no exercício da linguagem para a partilha de ideias e da construção conjunta da vida. Aristóteles pensava, sobretudo, o ser humano em termos de "cidadania", ou seja, sua interação com a sociedade na qual pertencia. Atualmente, não concedemos importância menor à primeira e fundamental "célula" em que ocorre nossas vidas: a família, seja ela qual for, seja ela como for.
Mas não apenas isso. A atividade racional está inerentemente ligada ao que hoje entendemos como "a busca da felicidade" e que, para Aristóteles, consistia na condução da vida através de valores (as virtudes), praticados seja no foro íntimo de cada um, seja na praça pública, diante de todos. O exercício da razão não ocorria apenas "para fora", no espaço de encontro entre seres humanos; ocorria também "para dentro", no momento em que paramos para nos escutar, para nos autoorientar, para refletirmos sobre quem somos e o que queremos ser.
Atualmente, me parece que o "exercício da razão" não é um valor primário da minha cultura, ou seja, a cultura brasileira de inícios do século XXI. Na nossa vida cotidiana, na formação de casais e no encontro amoroso, na televisão, nos debates políticos, nos filmes mais assistidos no streaming: o uso da racionalidade, quando não fica em segundo plano, sequer existe como valor e princípio de vida. A única coisa que encontramos é aquela velha pergunta descabida: "você é mais racional ou mais sentimental?". Somos feitos de sentimentos e de pensamentos o tempo todo, acordados ou nos sonhos.
Adoecemos no pensamento. E há inúmeras formas de adoecer no pensamento. A desesperança, a obsessão, a fixidez, a estagnação, o preconceito, a verborragia, a mentira, o auto-engano, o auto-menosprezo, a incapacidade de ollhar sob outra perspectiva. Podemos não dar a menor importância para a atividade da razão: ainda assim, nossos pensamentos estarão lá, conosco, o tempo todo. Julgando os outros (com quais critérios?), julgando a nós mesmos; calculando e estipulando quanto vamos ganhar ou quanto vamos perder; planejando o futuro e remoendo o passado (e se tivesse sido diferente?).
Do ponto de vista da partilha de ideias, vivemos à beira de um universo tóxico.
Como está a saúde dos teus pensamentos? Da tua forma de pensar a tua vida e a vida dos outros? De pensar a vida do teu país, da tua cidade? De pensar o amor e o desamor, a felicidade e o sofrimento?
O ambiente terapêutico é também um consultório dos pensamentos.
O pensamento é como qualquer coisa na vida: capaz de causar alegria, capaz de causar tristeza. Como não sentir alegria diante de uma pessoa querida que compartilha uma ideia divertida? Como não sentir tristeza diante de uma pessoa querida que nos informa que ela já não acredita mais em nada na vida?
Estamos sentindo o tempo todo. Mesmo não sentir nada é uma forma de sentir, como o silêncio é uma forma de escutar. As emoções suscitam nosso estado de ânimo, e nos permitem a energia (ou a falta dela) para agirmos no mundo e construirmos nossa existência. As emoções nos acompanham em tudo o que faz sentido para a nossa identidade pessoal, e nos ajudam a praticar nosso trabalho, nosso lazer, nosso descanso. Também as emoções nos impulsionam quando estamos diante do intolerável: sentimos raiva, indignação, vergonha. E, assim, podemos mudar, a nós mesmos, ou ao ambiente em que participamos. A amargura frequentemente nos torna "pior", porque nos tira a vontade e restringe nosso contato com os seres humanos que nos ceram; e o amor frequentemente nos torna "melhor", porque nos sentimos cheios de energia para ver e escutar o outro, para sentir o outro, para estar de forma agradável com o outro.
Mas também adoecemos no sentimento, e muito. Há vezes em que a emoção nos ultrapassa, e fazemos coisas com que não nos identificamos. Às vezes, as emoções atacam nosso estado de ânimo, e uma tristeza que deveria ser passageira se torna o palco central de nossa existência. Frequentemente vi pessoas se tornarem ferozes no amor (o mesmo amor que deveria nos reunir e nos alegrar); e então as interações se tornam violentas e desmedidas.
As emoções, assim como os pensamentos, ocorrem no Sistema Nervoso Central, ou seja, existem a partir das interações químicas entre os neurotransmissores. A medicação está aí, disponível, para atuarmos na química do cérebro e, assim, atuarmos nas emoções através de pílulas. De fato, o período atual da História está testemunhando uma revolução farmacológica, que se iniciou nas décadas de 1960/70 e continua atualmente, com impactos significativos e profundos na forma com que a sociedade gera a saúde. Bessen Van der Kolk, importante psiquiatra, no extraordinário livro O Corpo Guarda Marcas nos conta como foi uma testemunha direta da revolução farmacológica. Besser escreve que, quando começaram as primeiras medicações, sua geração acreditou que, em poucos anos, adoecimentos como a depressão seriam erradicados, assim como aconteceu com a varíola e a poliomielite. Porém, tal esperança não se concretizou e, ao longo das décadas, ocorreu exatamente o contrário: o avanço extraordinário de casos de depressão. Van der Kolk reviu sua posição e, atualmente, defende a importância das psicoterapias para a saúde mental.
E você? Como está a saúde das tuas emoções? O teu repertório emocional?
Somos mais do que pensamentos e emoções. Somos uma totalidade que, bem ou mal, identificamos como sendo nossa personalidade ou nossa identidade, no mundo, no trabalho, na família, ou apenas diante do espelho em uma casa vazia. Frequentemente somos bombardeados por famosos, ricos e no topo do sucesso, dizendo: "acreditem, acreditem nos seus sonhos". Porque eles conseguiram, todos devemos acreditar que vamos conseguir também. Nós construímos, com holofotes e muito dinheiro, nossa caverna de Platão, em que as ilusões são sombras que se mostram como a realidade.
Nas sociedades contemporâneas, como nas sociedades do passado, raramente conseguimos viver o que o desejo, a fantasia e os ideais nos sugerem. Infelizmente, assim como em referência à racionalidade, não me parece que nossa cultura trata com cuidado os "ideais". Fernando González Rey, importante psicólogo e teórico da Psicologia Histórico-Crítica, enfatizou a importância da "forma ideal" na educação; sem a "forma ideal" não há valores, nem transformação, nem um processo de aprendizagem significativo. Entretanto, nunca devemos perder de vista que a "forma ideal" surge como uma orientação, como uma bússola diante do mar escuro que é o futuro de cada pessoa. Sem ideais, estamos largados no mundo, náufragos no vazio. Quando nos forçamos a caber dentro dos ideais, estamos tentando fazer a vida acontecer dentro de uma gaiola de laboratório, em que tudo é controlado e definido de antemão.
O trabalho, a família, a escola, a praça, o mercado: todos os lugares que frequentamos dificilmente nos permitem ser plenamente quem queremos ser. De tal forma que podemos perder todas as referências, os valores importantes para nossa identidade pessoal. Mais de uma vez atendi pacientes com dificuldade de distinguir o que gosta do que não gosta, o que quer do que não quer, o que precisa do que não precisa. Quando a nossa auto-imagem se torna uma figura vaga para nós mesmos, criamos todo um terreno para nossa interação com os outros ser repleta de mal-entendidos e de sensações negativas.
Cuidar da identidade é o caminho da saúde. Pensamentos, emoções e identidade são os caminhos da psicoterapia.