Infelizmente, muitos estigmas ainda se referem às práticas de psicoterapia. O principal deles permanece na crença equivocada de que psicoterapia é "coisa para os loucos", para os "problemáticos", para os "complexados" e os "neuróticos".
A partir da segunda metade do século XX, as disciplinas de caráter científico produzidas no campo da psicologia ampliaram não apenas os temas e as metodologias de pesquisa: ampliaram, também, as possibilidades da prática clínica dos psicólogos treinados formalmente em universidades fiscalizadas pelo sistema de ensino.
Atualmente, os psicólogos têm possibilidade de treinamento e especialização em grande leque de temas, possibilitando uma ação espefícia na prática profissional:
Compulsão: vícios em bet, em redes sociais, em jogos.
Desregulação do ciclo circadiano: insônia e hábitos de sono.
Dependência química e tabagismo.
Fobias: avião, direção veicular, falar em público, entrevista de emprego.
Uma pessoa pode ter uma vida funcional íntegra, com bem-estar familiar, emprego satisfatório, boa rede de amizades. Mas ser acometida por um incômodo específico: insônia, ou tabagismo, ou fobia de falar em público.
Para essa pessoa, uma psicoterapia de menor duração, focada naquele problema específico, pode representar melhora significativa em sua saúde e bem-estar.
Durante o século XX, frequentemente o ambiente psicoterapêutico foi representado através da imagem do divã, que, assim, se tornou um símbolo do exercício da terapia. De fato, durante a ruptura cultural realizada por Sigmund Freud na virada do século, com o movimento que resultou na fundação da psicanálise e resultou na revolução dos cuidados com a saúde mental, o divã teve papel importante. A peça se tornou mais do que uma mobília destinada a receber os pacientes: se tornou parte integrante da técnica analítica, ao permitir a construção de um cenário adequado para a livre-associação de pensamentos e para a investigação do inconsciente.
Entretanto, a segunda metade do século XX testemunhou modificações profundas no campo da psicologia, trazendo importantes novidades para o ambiente psicoterapêutico.
Novas formas de interação entre o terapeuta e o paciente levaram à confecção do cenário mais frequente utilizado atualmente: a sala de psicoterapia individual, em que os dois sujeitos permanecem um de frente para o outro, às vezes com o menor número possível de móveis ou ítens de mobiliário entre ambos. É essa formulação que encontramos, por exemplo, no seriado "Sessão de Terapia". O divã, portanto, foi substituído pela uso de poltronas e sofás, que possibilitam uma interação direta entre o paciente e o terapeuta.
Não tardaria para uma terceira novidade alcançar o ambiente psicoterapêutico: para além do atendimento individual, a "sala da clínica" passou a ser preparada para receber uma família. Houve o desenvolvimento de formas de atendimento direcionadas a casais, com abordagem de questões ligadas à vida em comum e à saúde do relacionamento. E, também, abordagens ligadas aos sistemas familiares, com inclusão de duas gerações no processo psicoterapêutico: pais e filhos.
As novas concepções, entretanto, alargaram a interação para além do consultório clínico. Uma segunda forma de terapia se consolidou: a psicoterapia em grupo. Conduzida por um psicoterapeuta preparado e com a formação de um pequeno grupo estável e regular de indivíduos, as psicoterapias em grupo permitiram novas formas de abordar os problemas da vida, e de experienciar novas experiências de crescimento pessoal.
Terapias em grupo permitiram a formação de "comunidades terapêuticas", com o encontro e a vivência de indivíduos procurando novas formas de lidar com a vida, com a dor, e com o potencial humano para a alegria e a criatividade. A terapia em grupo trabalha a partilha e a renovação de como cada pessoa se insere em ambientes grupais.
Houve mesmo a formulação da "clínica peripatética", conceito desenvolvido por Antonio Lancetti no contexto da luta anti-manicomial. Utilizando como referência o conceito aristotélico de ocupar a "pólis" como cidadão, aqui o processo de criação de saúde passou a ocorrer a partir de novas formas de lidar com o espaço. Rompendo com o isolamento do consultório, aqui o terapeuta e o paciente interagem a partir do contato com o espaço público, e o atendimento ocorre nos locais da vida cotidiana: na rua, na casa, em praças.
Finalmente, a pandemia da Covid-19 trouxe uma ruptura radical nas formas de atendimento, com a "invenção" do "consultório online". Atualmente, estamos vivenciando uma mudança vertiginosa para os ambientes virtuais, em que o encontro do paciente com seu psicólogo ou analista ocorre à distância, a partir de ambientes separados. Os atendimentos virtuais têm oferecido benefícios importantes, incluindo a redução de custos e de maior possibilidade de acesso à psicoterapia para quem não dispõe de meios para pagar o preço-base da sessão, e a radical redução de problemas de mobilidade e de trânsito, questão aguda para os centros urbanos do país. Em contrapartida, o atendimento virtual apresenta questões que precisam serem enfrentadas com ética, e exigem maior investigação acadêmica e observação dos Conselhos de Psicologia. Os ambientes terapêuticos sempre foram construídos para salvaguardar a confidencialidade na relação paciente-terapeuta; a construção de um espaço seguro e reservado é fundamental. Até que ponto o atendimento virtual é capaz de proteger a confidencialidade da terapia? Antes, os psicoterapeutas eram responsáveis; agora, quem é o responsável por manter espaços seguros? Em segundo, os atendimentos online têm causado uma "uberização" dos profissionais da saúde, cada vez mais sujeitos às plataformas de atendimento online, e recebendo valores muito inferiores às tabelas de referência sugeridas pelo Conselho Federal de Psicologia. Finalmente, o atendimento virtual retira a presença dos sujeitos envolvidos na psicoterapia, reduzindo a intensidade de contato fundamentada no corpo e na proximidade entre duas pessoas.