Que o ser humano possa ser atravessado por um estado de profunda aflição é conhecido desde a Antiguidade. Na Ilíada de Homero, uma passagem descreve a desolação que atingiu Belerofonte, retratado como vítima de desafeto dos deuses:
"Objeto de rancor dos deuses,
Ele vagava solitário, pela planície de Aleia,
Com o coração devorado pela tristeza, evitando qualquer contato com os mortais".
A medicina grega não demorou a definir o conceito de "melancolia" para descrever uma multiplicidade de sinais que compunham um abatimento profundamente pessoal. A tristeza, a insônia, a preocupação excessiva, o temor excessivo, a solidão, o desânimo, a perda de vontade, o desejo de pôr fim à própria vida. Diferentes situações podiam caracterizar o estado melancólico. A mesma medicina não demorou a propor uma série de tratamentos terapêuticos. A farmacologia promulgava a utilização de medicações a base de heléboro, mas também mudanças na situação de vida do paciente: uma possível mudança de "ar"; dieta com alimentação mais leve; prática de exercícios e intervenções para boa condução dos momentos de repouso, descanso e sono; escuta de música e prática de atividades aprazíveis, entre as quais o contato frequente com amigos.
Com o advento da medicina contemporânea, no início do século XX um novo termo passou a ser empregado e conhecido: "depressão". Em 1950, o conceito se tornou chave para a psiquiatria e para as práticas psicoterapêuticas, com a publicação do primeiro Manual Diagnótico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Durante o século, pesquisas ocorreram em várias frentes; a depressão teve papel importante na revolução farmacológica, com o desenvolvimento de medicamentos específicos, e teorias de ordem genética foram propostas como hipóteses de explicação.
Atualmente, alguns pontos-chave são reconhecidos. Em primeiro lugar, recomenda-se fortemente a associação entre farmacologia e psicoterapia para o alcance de uma melhor qualidade de vida dos pacientes; ou seja, apenas a farmacologia não é uma solução ideal.
Em segundo lugar, assim como a melancolia na Antiguidade, a depressão pode se manifestar sob diferentes formas. A imagem de uma pessoa abatida pela tristeza é apenas uma das formas possíveis que a depressão pode adquirir.
Humor irritadiço e "pouca paciência para tudo"
Perda de interesse
Perda de desejo
Sensação de falta de sentido
Vontade de desistir
Além disso, a depressão pode assumir uma faceta que requer intervenção imediata e cuidado atento: a vontade de tirar a própria vida.
Um paciente usou as seguintes metáforas para falar da depressão. Primeiro, me perguntou se eu já tinha visto o filme "Corra" (título em inglês: "Get Out", 2017). No decorrer da história, há uma cena em que o protagonista, interpretado por Daniel Kaluuya, sente uma "queda para dentro". É como se ele ficasse cada vez menor, e caísse infinitamente, dentro de um espaço vazio em si mesmo; e seu corpo ficasse para trás, automatizado, destituído de vontade, de energia, de autonomia. Uma perda da identidade em si mesmo. O paciente me revelou que, quando vinham "os momentos da depressão", ele sentia exatamente igual: uma queda para dentro, uma sensação de diminuir até quase desaparecer num vazio do próprio peito.
No decorrer das sessões, enquanto estávamos tentando pensar no que acontecia quando "as coisas melhoravam", o paciente utilizou a segunda metáfora. Ele dizia que, às vezes, as coisas quebradas se encaixavam e ele sentia uma súbita energia, e era como um avião no horizonte: planando, sem cair, apenas planando. O vazio e a possibilidade de queda continuavam, mas ele sentia forças para planar e pairar acima do abismo, e ir fazendo as coisas da sua vida. O próprio paciente denominou esse processo como "momentos da esperança". A esperança era como o combustível do avião: enquanto estivesse lá, ele continuaria, planando acima do absimo.
Perguntei se eu poderia utilizar essas metáforas fora do consultório, sempre preservando sua identidade. Ele concordou, mas se mostrou surpreso: por que alguém iria se interessar?
Porque as metáforas, além de serem extraordinárias, também podem ajudar outras pessoas.