A ansiedade afeta a vida de muitos brasileiros. Estimativas apontam que cerca de 19 milhões de pessoas, em nosso país, tem de conviver com alguns dos sintomas que compõem um quadro de ansiedade. Os índices, provavelmente, são ainda piores, porque diversos motivos levam muitas pessoas afligidas por ansiedade a jamais procurarem uma equipe de saúde.
A ciência contemporânea, seja na área da medicina, seja na área da psicologia, entende que o corpo humano contém uma série de dispositivos emocionais importantes e positivos para a nossa sobrevivência, entre os quais o medo, a preocupação, o temor. Não há vida sem essas emoções, que podem aparecer com intensidade maior ou menor de acordo com as circunstâncias.
O medo "liga" nossa atenção e prepara o corpo para reagir à altura. Ele evita que o ser humano se lance irracionalmente em situações adversas, resultando em danos ao organismo ou na própria morte. Da mesma maneira, a preocupação, forma diferencial do medo, é importante: através dela ativamos nossos potenciais de pensamento, reflexão e imaginação e, a partir daí, podemos nos preparar e tentar enfrentar com maior capacidade os desafios da vida.
Entretanto, as pressões da sociedade contemporânea podem causar grande instabilidade nos nossos recursos emocionais. Inseguranças e incertezas no mercado de trabalho são fontes contínuas de preocupação. Além disso, a existência de situações de grave injustiça no ambiente de trabalho, infelizmente, não são incomuns em nosso país, e não raramente temos de conviver com o nepotismo, com a preferência por alguns em detrimento de outros, com o estabelecimento de metas incompatíveis, com autoritarismo, com a incidência de lideranças despreperadas ou incapazes de empatia, com a falta de planejamento, com a baixa remuneração em empresas de alta rentabilidade, com condições que nos fazem perder o sentido de identidade pessoal e de significado para a vida.
Nossa própria casa, que deveria ser um espaço de acolhimento, proteção e bem-estar, pode se tornar uma fonte de preocupação e temor. O cuidado com os filhos, o cuidado com os mais velhos, os compromissos financeiros, o adoecimento físico ou mental daqueles que estão próximos e nos são queridos podem ter impactos profundos sobre nosso dia-a-dia emocional.
Não há tristeza, não há abatimento, não há falta de energia; entretanto, aparece um certo peso no coração, uma quase falta de ar, que nos tira os momentos de alegria de viver e nos fazem cismar no tempo de lazer. Ou então, tudo está bem, até pisarmos no ambiente de trabalho, até cruzarmos os portões da escola ou da universidade: então um constrangimento no tórax e uma vontade inexplicável de dar meia volta e sair dali o mais rápido possível. São essa duas formas diferentes com que a ansiedade nos visita.
O historiador Eric Hobsbawn definiu o Brasil como um "monstro de desigualdades". De fato, no país que surge como o principal produtor de alimentos do mundo, cerca de 25% da população, em 2026, vive em situação de insegurança alimentar. No país que se aproxima de baixas taxas de desemprego, cerca de 30% da população das quatro maiores cidades residem de aluguel, em razão das dificuldades de aquisição de uma casa própria. Os indicadores mostram que, em 2023, nosso país registrou impressionantes números de violência cotidiana. Por dia, cerca de 127 pessoas foram assassinadas; 4 feminicídios foram cometidos; e cerca de 10.000 furtos foram realizados, num único dia!
Nosso país está muito longe de oferecer uma sensação de segurança e de bem-estar para os brasileiros. Entretanto, somos ensinados desde cedo a normalizar as situações as mais anormais, caóticas e sem-sentido. Somos desde cedo empurrados para sentir como natural, como "a vida como ela é", circunstâncias históricas absurdas e inaceitáveis. E assim, somos treinados a não sentir o sentimento, a não pensar o pensamento, a viver de braços largos a não-vida, e a mantermos relacionamentos sem trocas ou contato.
Tudo muito bem, tudo muito legal, até nosso corpo emitir um sinal, nosso corpo emitir uma mensagem simples: "só que não".
A nossa primeira tendência é sufocar a ansiedade que nos sufoca; a tentar paralisar a ansiedade que nos paralisa; a tentar bloquear a ansiedade que nos bloqueia.
O psicoterapeuta Ênio Brito diz, no livro "Dialogar com a ansiedade" (São Paulo: Summus, 2021), que devemos escutar com muita atenção o que a ansiedade quer nos dizer, o que a ansiedade tem a nos dizer. Entretanto, nem sempre é fácil ouvir, sobretudo quando estamos acostumados a silenciar aquilo que sentimos para poder existir lá fora, "no mundão", entre o trabalho e os mal-entendidos amorosos.
Você, já parou para escutar?